A alma é um cenário.
Por vezes, ela é como uma manhã brilhante e fresca,
inundada de alegria.
Por vezes ela é como um pôr do sol...
triste e nostálgico.

-Rubem Alves-

Seja bem-vindo. Hoje é
Deixe seu comentário, será muito bem-vindo, os poetas agradecem.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

SONETO PARA NAVEGAR

Há um tempo na vida que supomos
ter vencido sem trauma nem feridas
olvidando o sangrar das despedidas
sofridas nos poentes dos outonos...


E há um tempo de rosas renascidas
dos áridos desertos que nós somos
não obstante o estio vão os pomos
adoçando o penar de nossas vidas!


Ainda há um tempo que a saudade
como um rio que chora de piedade
nosso pranto carrega para o mar...


E vai além o nosso amor profundo
cantando no crepúsculo do mundo
a canção que a razão faz navegar!


Afonso Estebanez Stael 
13.05.2014

ANIVERSARIAR




Aniversariar
é como abrir a janela pela manhã e ver,
sentir os outros bem diferentes,
mais ou menos amáveis, na nossa medida.

Aniversariar
é re-colocar parentes e amigos,
todos -- vivos ou mortos -- ao redor da mesa
da casa longe de casa.

Aniversariar
é tentar dissimular que hoje não é o dia
e não conseguir esse disfarce
simplesmente porque hoje é de fato
o dia do aniversário.

Aniversariar
é um limite e uma esperança
de que esse limite não se limite tanto
a um determinado momento em que se recebe abraços,
beijos e presentes.

Aniversariar
é qualquer coisa assim
como um motivo de fugaz felicidade
para o poeta fazer um poema de amor e amizade que dure
até quando se puder guardar esse poema.


Ricardo Dos Anjos

BRECHÓ DA ALMA


Sapato velho é um caminho andado
relembrado na sola de uma história
portanto não convém seja ignorado
como um fado perdido na memória.


Não joguem fora um livro desusado 
sem lembrar se contém dedicatória
a alguém que faça parte do passado
que se apegou à uma paz simplória.


Meu coração tem eu e meus porões,
meu armário está cheio de emoções
por cartas devolvidas sobre a mesa.


Hei dobrado meus trapos na gaveta
vejo os dias sumindo na ampulheta
e com eles meus fardos de tristeza!


Afonso Estebanez Stael
(27.04.2017)

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Poema de Ano-Novo



Poema de Ano-Novo


Ficção de que começa alguma coisa!
Nada começa: tudo continua.
Na fluida e incerta essência misteriosa
Da vida, flui em sombra a água nua.

Curvas do rio escondem só o movimento.
O mesmo rio flui onde se vê.
Começar só começa em pensamento


Fernando Pessoa.
In Poesia 1918-1930, Assírio & Alvim
ed. Manuela Parreira da Silva,
Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005

PASSAGEM DO ANO


PASSAGEM DO ANO



O último dia do ano
Não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
E novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
Farás viagens e tantas celebrações
De aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia
E coral.

Que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,
Os irreparáveis uivos
Do lobo, na solidão.

O último dia do tempo
Não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
Onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
Uma mulher e seu pé,
Um corpo e sua memória,
Um olho e seu brilho,
Uma voz e seu eco.
E quem sabe até se Deus...

Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.

Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa, já se expirou, outras espreitam a morte,
Mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
E de copo na mão
Esperas amanhecer.

O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
O recurso da bola colorida,
O recurso de Kant e da poesia,
Todos eles... e nenhum resolve.

Surge a manhã de um novo ano.

As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
Lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.


Carlos Drummond de Andrade
In Reunião — 10 Livros de Poesia
(de A Rosa do Povo, 1945)
Ed. José Olympio, Rio de Janeiro, 1971

Ocaso


“Ocaso”


Quando o ocaso se faz presente
Uma a uma as quimeras vão desaparecendo
Quais pássaros retornando ao ninho...
Para volver no pleno alvorecer...
Quando irão renascer as ilusões.


Dia após dia, se repetindo
Sem nunca realizar o tão almejado sonho...
O único certo é o incerto já conhecido.


Anna Carlini
de ''Fadado ao esquecimento''

'ANO-NOVO'


Meia-noite.Fim
de um ano, início
de outro.Olho o céu:
nenhum indício.
Olho o céu;
o abismo vence o 
olhar. O mesmo
espantoso silêncio
da Via-Láctea feito
um ectoplasma
sobre a minha cabeça:
nada ali indica
que um ano novo começa.
E não começa
nem no céu nem no chão
do planeta:
começa no coração.
Começa como a esperança
de vida melhor
que entre os astros
não se escuta
nem se vê
nem pode haver:
que isso é coisa de homem
esse bicho 
estelar
que sonha
(e luta).


Ferreira Gullar
In Barulhos

O QUE MAIS QUERO


O QUE MAIS QUERO


Posso fazer o que mais quero.
Mas não faço.

Porque depois
ficava sem mais nada para sonhar.


Vieira Calado

A passagem das horas

A PASSAGEM DAS HORAS





A passagem das horas

o perpassar dos dias
o lento fervilhar do tempo em seus artifícios
de claridade e sombras
trazem-nos a este lugar preciso
de quietude
em ondulações do silêncio e apaziguamento.
É aqui
onde deveremos aprender
os festejos da luz
a sombra do pecado original
dos fascínios
pelo regresso urgente
a nossa casa.


Vieira Calado
em "OS DIAS E AS NOITES",
ed, Litoral 2014

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Abismo




 Nada prende o passageiro
e seu abismo de espelhos
onde reflete o destino
do tempo

Nada esconde o passageiro
e sua cabeça de estrelas
onde guarda bagagens
e vento

Nada espera o passageiro
no seu caminho de espanto
onde encontra a perdição
e o pranto

Nada perde o passageiro
com sua coragem sem bolso
onde enfrenta paredes
e fogo

Nada parte o passageiro
com sua arte de encontros
onde inaugura cidades
e sonho

 Nei Dúclos,
 em "No meio da rua".
Porto Alegre RS: L&PM Editora, 1979.

quarta-feira, 13 de abril de 2016

As elegias





É meio dia em minha
vida,
meu sonho
meu sol,
minha dança alucinada
no horto.

Para quem fui,
gotas ficaram pendentes
nas espigas.
Para quem sou,
canto humilde e ave
partida.

É meio dia em minha
vida,
este relógio  de hastes
singulares e plurais
ceifando o tempo,
trazendo à luz
banquetes fartos e limpos
- irreais


 Eulália Maria Radtke,
 em "O sermão das sete palavras". Florianópolis SC: FCC Edições; Brasília: Thesaurus, 1985.

Vaso de flores



O som do vento
faz dançar a chama da vela.
O balé da chama
aquece as flores no vaso,
flores que ontem me deste.

Bruxuleia vermelho clarão
e o vermelho à sombra adere.
O vento gira, gira e gira
vibrando a chama da vela
que dança, ao giro do vento,
obsessiva, hipnótica dança.

Deitadas ao acaso, enrubescem
as flores no vaso.
Lá fora, a música do vento
adere ao latido do cão.


 Fausto Rodrigues Valle,
 em "A fonte do sal". Goiânia GO: Zamenhoff Editores, 1988.

segunda-feira, 14 de março de 2016

Exílio



Quando
a pátria que temos não a temos 
Perdida por silêncio e por renúncia 
Até a voz do mar se torna exílio 
E a luz que nos rodeia é como grades


Sophia de Mello Breyner Andresen,
in 'Livro Sexto'

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

"ABNEGADO"



(Para lembrar o dia do nascimento de Alceu Wamosy, (14/02/1895)poeta gaúcho, falecido aos 28 anos de idade)


Ama a tua própria dor, que ela há de consagrar-te
E há de te iluminar de límpidos clarões,
Fazendo da tua alma um rútilo estandarte
Bizarro, a palpitar em plácidas regiões!

Ela é que há de te guiar e é quem há de iniciar-te
Na vida do mistério e das consagrações.
Sofre e faz da tua mágoa um grande sonho de arte,
igual ao de Petrarca, igual ao de Camões!

E a sofrer e a cantar - mártir e rouxinol,
Vai armar a tua tenda a um ponto do universo,
Onde a luz só palpite, onde só vibre o sol.

Espalha então daí num gesto sacrossanto,
Os soluços da rima e as lágrimas do verso,
Num dilúvio imortal de bençãos e de pranto!


Alceu Wamosy
Poesias Completas

****




'Não importa a distância que nos separa, há um céu que nos une.'

Carlos Drummond de Andrade

***



"Como é que escreve poesia?
--- Entortando o caminho da frase.
E como é que se apaixona?
--- Aí é alinhando.
As frases?
--- Não, os corações."

Álisson Villa
jornalista, músico e escritor mineiro.

'Das lembranças'


Quando a gente gosta,
a gente começa emprestando um livro,
depois um casaco, um guarda chuva,
até que somos mais emprestados do que devolvidos.
Gostar é não devolver, é se endividar de lembranças.


Fabrício Carpinejar

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Poema De Natal



Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorarPara enterrar os nossos mortos -
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.

Assim será a nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos -
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.

Não há muito que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez, de amor
Uma prece por quem se vai -
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.

Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte -
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.


 Vinicius de Moraes

domingo, 15 de novembro de 2015



Nossas condolências a França pelo dia de sexta-feira 13 de novembro de 2015.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

MUTAÇÃO



Onde a fonte habitual do sonho?
Onde a esperança?
Onde aquela segura confiança
No dia de amanhã?

E o suave rosto amanhecente,
Com seu olhar e seu sorriso?
E as tempestades emotivas,
A desabar em pranto e sorriso?

Como chegou, tão de repente,
Este sabor de tédio e morte?

Despreocupada, a gente adormece
Em mocidade.
Eis que desperta, subitamente,
Na outra margem.

Quando se faz a travessia?


- Helena Kolody,
em "Viagem no espelho".
5ª ed., Curitiba: Editora da UFPR, 1999,.

MUSICA ETERNA



Rumor obscuro da chuva,
Idêntico e antigo,
Acalentando a noite.

Dança de folhas, despercebida:
Mata em sussurro.

Claro ritmo das chamas
Alegrando lareiras.


- Helena Kolody, 
do livro "A sombra no rio"/em:'Sempre poesia - antologia poética'.
Curitiba: Editora Ímã Publicidade, 1994.

CANÇÃO DO INVERNO


Cai a neve, de mansinho...
Cai a neve em meus cabelos,
Que eram de ouro e são de luar.

Altas torres de castelo...
Cai a neve, de mansinho,
Para os sonhos sepultar.

Cai a neve... tão de leve!

No meu rosto, brando e brando,
Será a neve resvalando.
Ou é o pranto a deslizar?

Helena Kolody
Do livro Viagem no Espelho,
Editora UFPR, 1999, Curitiba/PR

segunda-feira, 13 de julho de 2015

MENSAGEM A UM DESCONHECIDO

 
Teu bom pensamento longínquo me emociona.
Tu, que apenas me leste,
acreditaste em mim, e me entendeste profundamente.


Isso me consola dos que me viram,
a quem mostrei toda a minha alma,
e continuaram ignorantes de tudo que sou,
como se nunca me tivessem encontrado.



Fevereiro, 1956



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)
[Tela: San Carlos]

domingo, 21 de junho de 2015

4


Venha a canção de cada vez mais vaga e etérea.
Fez-se bruma lunar a amargura que sou.
Diluíram-se na sombra antiga as formas feéricas.
O mundo enorme se esvaziou.


Noutros longínquos céus talvez estrelas tremulas
esplendam. Mesmo assim: também se apagarão.
Venha a canção de cada vez mais leve e efêmera,
para morrer na solidão. . .

Tasso da Silveira
In: Puro Canto

OS CAVALOS DO TEMPO


Os cavalos do Tempo são de vento.
Têm músculos de vento,
nervos de vento, patas de vento, crinas de vento.

Perenemente em surda galopada,
passam brancos e puros
por estradas de sonho e esquecimento.

Os cavalos do Tempo vão correndo,
vêm correndo de origens insondáveis,
e a um abismo absoluto vão rumando.

Passam puros e brancos, livres, límpidos,
No indescontínuo, imemorial esforço.
Ah! São o eterno atravessando o efêmero:
levam sombras divinas sobre o dorso...


Tasso da Silveira
In: 'Regresso à Origem'

segunda-feira, 15 de junho de 2015

MINUETE



O minuete das flores vai começar.
Ha uma rosa vermelha que balouça, balouça,
em reverência a um lírio.

Tocam os grilos escondidinhos para a quadrilha.
Há um crisântemo crespo muito orgulhoso,
e sua corola parece que gira.
Ele dança imóvel — consigo mesmo...

As folhas secas também valsam,
— realejo ao vento —
valsam remoinhos silenciosos,
— folhas ingênuas — baile de pobres...
Dançam as flores, dançam perfumes na minha alma.
0 minuete das mágoas vai começar.
Minha alma não dança com as outras almas:
— dança imóvel — consigo mesma...


 Augusto Mayer
em Poemas de Bilú


terça-feira, 26 de maio de 2015

''CANÇÃO DA INDIFERENÇA''




A vida passa,
leve
como a fumaça,
sem que possa
ao menos compreendê-la.

É um perfume sutil de magnólia,
cintilância indecisa de uma estrela,
um zumbido de vespa que esvoaça
em torno de uma flor
ou junto a um fruto.

É como um nome escrito sobre a areia
para viver o espaço de um minuto.
Aceitemo-la com indiferença,
como se olha a fumaça que se evola
ou se aspira o perfume de uma flor;
tal se escreve na areia um nome amado
porque se sente o amor.

Vivamo-la, pois, serenamente,
trazendo sempre a alma contente
e alegre o coração,
na certeza de que ela é transitória
e que sua glória
é como a glória
de uma bolha de sabão.

Não vale sentir tanta amargura
tanta tristeza
 e quanta desventura
a vida possa nos causar.

O que vale na vida indiferente
é o pouco que o acaso nos concede
nesse inclemente
desfiar das horas,
nessa fuga do tempo
que nos mata

lentamente...
imperceptivelmente...
imperceptivelmente...


Alfredo de Cumplido de Sant'Anna
In Poemas e Legendas

Devaneio de fim de tarde...



Entre choro e riso
Chegada, despedida
Partida, retorno
Cicatriz após ferida
Seguimos tentando
temperar nossa vida...


 Jefferson Dieckmann



[...]vestiu-se de memórias. ou talvez de sonhos.
confundida com as personagens do romance que nunca terminou,
vestiu-se de palavras luminosas, com frases tão belas quanto os afectos e entrou lá, no lugar onde as palavras jamais cessam de nascer.

[Excerto]
Julia Moura Lopes

VASTOS CAMPOS DE SOLIDÃO


Eu tenho o silêncio
entranhado em minha alma,
vastos campos de solidão,
onde a alma perambula
em busca de um abrigo,
de um sorriso amigo,
de um gesto de paixão.

Eu tenho o silêncio
engasgado em minha garganta,
coisas que eu tinha de dizer,
palavras que eu não pude pronunciar,
e a alma gesticula nervosa,
aflita por sua incapacidade de falar.

Eu tenho o silêncio
enraizado em meus poemas.
Vontade de calar palavras,
de dormir o sono dos inocentes,
de sepultar sonhos de outrora,
de descobrir novos sonhos agora.

Eu tenho o silêncio
entranhado em minha alma.
Vastos campos de solidão.


Naldo Velho

quinta-feira, 30 de abril de 2015

SUBSTANTIVOS QUASE ABSTRATOS



I

Carinho
é um pássaro lazo e azul:
sublime, arisco e raro,
precisa de paz, luz e ninho. 


II

Ternura
é uma nuvem de verde cura:
precisa de abrigo
no coração da aventura.

III

Afeto
é tudo que ofertamos às almas
de mãos postas e peito aberto:
precisa de amores (di)versos.

IV

Gratidão
é um sentimento cúmplice:
precisa de coragem e culto diário
para voraz atropelar a escuridão!


Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"

Aniversariar



Aniversariar
é como abrir a janela pela manhã e ver,
sentir os outros bem diferentes,
mais ou menos amáveis, na nossa medida.


Aniversariar
é re-colocar parentes e amigos,
todos -- vivos ou mortos -- ao redor da mesa
da casa longe de casa.

Aniversariar
é tentar dissimular que hoje não é o dia
e não conseguir esse disfarce
simplesmente porque hoje é de fato
o dia do aniversário.

Aniversariar
é um limite e uma esperança
de que esse limite não se limite tanto
a um determinado momento em que se recebe abraços,
beijos e presentes.

Aniversariar
é qualquer coisa assim
como um motivo de fugaz felicidade
para o poeta fazer um poema de amor e amizade que dure
até quando se puder guardar esse poema.


Ricardo dos Anjos

[Fotografia que ganhei da amiga Dulce Mendes- Cassino - Rio grande do Sul.28/04/215]

domingo, 19 de abril de 2015

ABSTRATO


Nem veste
Nem pele
Só alma

Jefferson Dieckmann,

CANÇÕES DAS FLORES



I


Como os lírios na noite
junto às águas sombrias do regato,
brilhas diante de mim, amiga, em meus dias sombrios.
Nos meus longos outonos
é um belo consolo pensar
que onde quer que eu vá, vou à luz dos lírios.

As sombrias águas da torrente
escoam-se rápidas na noite
e não visitam mais a ribeira dos lírios.
Quanto mais me afasto
mais me recordo de tua beleza;
sigo, ébrio do odor de lírios, e espero e confio.

Erik Axel Karlfeldt**
in Poesias


**Erik Axel Karlfeldt (Karlbo, 20 de Julho de 1864 — Estocolmo, 8 de Abril de 1931) foi um poeta sueco simbolista, cujas poesias aparecem como regionalistas da era popular. Recebeu o Nobel de Literatura de 1931. Karlfeldt recusou o prêmio em 1919, considerando tal atribuição injusta por ser ele o secretário permanente da Academia Sueca.
Karlfeldt nasceu em uma família de agricultores em Karlbo, na província de Dalarna. Inicialmente, seu nome era Erik Axel Eriksson, mas ele assumiu seu novo nome em 1889, querendo se distanciar de seu pai, que havia sofrido a desgraça de uma condenação penal. Ele estudou na Universidade de Uppsala,1 ao mesmo tempo apoiando-se através do ensino escolar em vários lugares, incluindo Djursholms samskola em Djursholm, subúrbio de Estocolmo, e em uma escola para adultos. Após completar seus estudos, ele ocupou uma posição na Biblioteca Real da Suécia, em Estocolmo, por cinco anos.
Em 1917, Karlfeldt recebeu seu alma mater da Universidade de Uppsala, concedendo-lhe o título de Ph.D. em Honoris causa.

POEMA

 
E então, pergunto, por que esta vida
de pão e horas moídas?

Por que não somente um pássaro
na insciência da tarde clara,

uma árvore verde embutida
no musgo da manhã... Por que esta vida?

Por que não uma pedra severa
que não procura, não erra, não espera,

ou então outra vida, outra vida
que não esta, de sal e lâminas finas,

que não esta, de sal sobre as feridas?


Renata Pallottini
De Obra Poética (1995)

"Campos de Algodão"




Passeava em meus pensamentos..
A Poesia e a inspiração..
A lembrança era sempre a mesma..
Com momentos de ilusão..
Entre a viagem nas nuvens..
Sobre os campos de algodão..
Com aquele aperto no peito..
E o calor da sensação..
Quando surgiu no horizonte..
Aquela vibração..
Um raio de luz na penumbra..
Trazendo consigo na alma desnuda..
Magia.. encantamento..
Sempre esta doce emoção..
Poesia..
Dona desta inspiração..


Marta Eloiza

BUCÓLICA



A vida é feita de nadas:
De grandes serras paradas
À espera de movimento;
De searas onduladas
Pelo vento;


De casas de moradia
Caídas e com sinais
De ninhos que outrora havia
Nos beirais;

De poeira;
De sombra de uma figueira;
De ver esta maravilha:
Um pai a erguer uma videira
Como uma mãe que faz a trança à filha.


Miguel Torga
[Escrito em S. Martinho de Anta, 30 de Abril de 1937
Publicado em “Diário I”, Coimbra, 1941
E em “Poesia Completa”, 2000
Editora: Dom Quixote -Portugal]

LONGE



Às vezes,
tudo é tão longe em mim...
Meu viver parece um história
que alguém sonhou
há muito tempo,
num país distante.


(Sempre Palavra)

Helena Kolody
In: Luz Infinita

CANTAR


Quem vai cantando
não vai sozinho.
Dançam em seu caminho
o sonho e a canção.


(Poesia Mínima)


Helena Kolody
In: Luz Infinita

O VOO




Dói o domingo
no ninho dos tédios.

Dói o verão:
esta pele seca
estirada
sobre os ministérios vazios.

Dói o clube
dos domingos.

Dói o rito
dos domingos:
o amargo esporte
de viver.

O amargo esporte
de esquecer.

Dói a divisão da vida:
o pão subtraído,
o peixe poluído,
a paz envenenada.

Dói o voo cortante desta tarde.


H. Dobal,
Poeta piauiense, nasceu em Teresina.
In Antologia - I Concurso Nacional de Poesias
"Vinicius de Moraes" para Servidor Público.


[Arte;Michael&Inessa Garmash]

SILÊNCIO





Nada.
Nem o riso.
Nem a palavra.
Nem o humano grito.
Nada é mais duradouro que o silêncio.
 
Vicente Cechelero

JOGO


Ímpar –
Solidão que se acredita
Feliz se chegar a par.

Par –
Dois ímpares que se juntam
Em solidões separadas...
Par ou ímpar?

Tanto faz –
O resultado da escolha
É a mesma falta da paz.


Homero Frei
In: Lado Alado

[Arte; Denis Nolet]

domingo, 12 de abril de 2015

Milagre


De tempos em tempos, necessita-se um milagre
Algo a ser visto, mostrado, não por sobrenatural,
mas por algo que toque e desvele a natureza mesma,
por onde ela se esconde na miséria de sua invenção


De tempos em tempos, um milagre:
um gesto, humano e natural que seja,
que resgate, por um instante,
( que embale a eternidade)
um corpo que cai em irreal realidade

De tempos em tempos, um milagre que nos veja
e acaricie os olhos vedados
de nossa cega mortalidade

Em tempo, um milagre,
para que enfim se veja
que milagre é todo tempo
que esculpe uma verdade

Milagre que revele
nossa transcendente humanidade.

Adrilles Jorge.

-Paint by  -Vladimir Kush-

Falta


Quem sentirá tua falta quando faltares?
Importa a ti a tua falta
quando aqui não mais te achares?
Que falta faz a falta a si
quando a falta a ela mesma se torna presente?



Tu, que de ti nunca te ausentas
que de ti sempre te escondes
sabes bem
que tudo sobra
porque sempre falta algo que se ausenta,
desde antes que te abandonaram à vida,
quando nasceste
E até sempre
quando tu também
te encontrares na memória do que falta.


Adrilles Jorge.

-Paint by  Christian Schloe-

Na treva


Na treva, desenhamos o esboço da luz
para que nossa criação nos ilumine

Na treva, tateamos a voz mais próxima
que ecoa o calor de um corpo
que aquecerá
a multidão de nossas solidões entrelaçadas

Abrimos os olhos
e enxergamos com nitidez
a escura salvação que nos cega

Fechamos os olhos novamente
a fim de nos libertar
da cegueira que nos conduz
e tocamos nossa nudez desamparada
invisível a olhos sempre vestidos
por uma sempre clara ilusão.


Adrilles Jorge.
[Poeta belo-horizontino]

sexta-feira, 27 de março de 2015


...Lutar em segredo, fechado no quarto, sem que ninguém saiba. Para os outros, mostrar só o melhor de si, a face mais luminosa...

Caio Fernando Abreu
O desejo mergulha na luz,
de: Pequenas epifanias
 
...Gosto de pessoas doces, gosto de situações claras — e por tudo isso, ando cada vez mais só. É como me sinto melhor. ..


Caio Fernando Abreu
(Carta a Guilherme de Almeida Prado)

ENTRE O PÁSSARO E O AZUL


Verde, vermelho, azul e novamente
verde. A cor é um murmúrio da paisagem.
Na forma mais sutil de cada imagem
a terra é sempre a mesma e diferente.


Entre o pássaro e o azul a circunstância
é o rumor de asas. Entre folha e vento
a nuance é o voo. Entre o céu e o mar intenso
o mar é apenas líquida distância.

Em som e cor o mundo nos penetra
e sendo humano é um só. Para que habite
em tudo a voz profunda que interpreta

surge a palavra em densas sutilezas
composta a desdobrada sem limites
como se inventa em si a natureza.


Lupe Cotrim
in Encontro

TEMPO DE AMOR


A chuva de outono molha
o peso de minha altura
e tal rosa que desfolha
tenho pétalas na figura.


Por entre árvore e deserto
eu danço minha existência
de tudo longe e tão perto,
numa presença de ausência.

Irei por tudo que for;
Nessa posse do universo
carrego um tempo de amor
pelas tardes do meu verso.


Lupe Cotrim
in Encontro